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Artigo

 

Titulo:Ambigüidade: isto e/ou aquilo?
Autor(a): Arenildo dos Santos (Professor e diretor do Curso PLA)
Data Postagem: 15/11/2009

Um dos assuntos mais presentes em provas de concursos públicos diz respeito ambigüidade, também conhecida como anfibologia. Trata-se da possibilidade de se depreenderem dois ou mais sentidos a partir de uma palavra, expressão ou mesmo frase, num contexto dado. É o assunto que trago hoje para contemplarmos juntos.
A ambigüidade é freqüente em textos jornalísticos (na maioria das vezes, é proposital). Em outubro último, na semana imediatamente após o domingo do primeiro turno das eleições, o jornal O Globo estampou em sua capa: Cabral desiste de casamento gay para ficar com Crivela.
Óbvio que a leitura do texto – em sua superfície – sugere um sentido alheio ao que o contexto extratextual aconselha. No fundo, a reportagem afirmava que Cabral, para obter o apoio de Crivela (adepto da Igreja Universal), estava disposto a não apoiar tão abertamente o casamento gay. Uma leitura restrita superfície textual, entretanto, sugere – em perfeita consonância com o assunto tematizado – relações, digamos assim, alternativas. Tudo isso, é claro, resultado da criatividade do jornalista.
Ainda em relação ao universo das campanhas eleitorais, o leitor deve lembrar-se de que, no primeiro semestre, quando Garotinho fez até greve de fome, alegando que o PMDB o estava boicotando, um dos dirigentes nacionais do partido fez o seguinte comentário: Garotinho não sabe administrar coisa grande.
O comentário pode ser entendido como “Qualquer menino não tem condições de administrar coisas importantes, complexas.” e como “Candidato Garotinho já administrou município (Campos), estado (Rio de Janeiro), mas não tem condições de administrar um país, isto é, “uma coisa grande”.
Há alguns anos, quando Blair, o ministro britânico, aceitou o pedido de demissão de Peter Mandelson, um dos principais articuladores do governo, jornais exploraram o assunto com a seguinte manchete: Blair perde seu braço direito.
A manchete sugere, prioritariamente, uma leitura em âmbito denotativo, mas o conteúdo da reportagem esclarecia que a manchete apresentava sentido predominantemente conotativo: “braço direito” estava por “principal aliado”.
Há pouco tempo, a seção Mundo do jornal O Globo trazia, entre outras, a seguinte matéria: Papa pede a divulgação da fé pela internet. É difícil, no caso em questão, afirmar se a ambigüidade foi intencional ou não. Sem ler toda a matéria, entretanto, não há como saber se “o Papa usou a Internet para pedir a divulgação da fé” ou se “o Papa pediu que usassem a Internet para a divulgação da fé”.
A ambigüidade é explorada também como alavancas de risos em piadas. Veja só: “No avião, a filha adolescente estava enjoada e, por isso, a seu lado, a mãe, preocupada, tentava tranqüilizá-la. Um cavalheiro ao lado perguntou mãe: Foi comida? E a senhora respondeu: Foi, sim, mas vai casar.” Nessa piada, o cerne da ambigüidade está atrelado palavra “comida”, proferida como substantivo pelo cavalheiro, mas entendida como particípio verbal pela senhora.
Ancelmo Gois já registrou em sua coluna, no jornal O Globo, placas de cabeleireiros com o seguinte anúncio: Corto cabelos e pinto ou Corto pinto e lavo. Em ambos os casos, uma simples reorganização das frases elimina a ambigüidade: Lavo, corto e pinto cabelos.
Em campanhas publicitárias, a ambigüidade (aliada polissemia) é acionada para, em geral, incentivar reflexão. Grupos voltados conscientização dos jovens – sobretudo em relação aos perigos resultantes da nociva aliança álcool/trânsito – lançaram recentemente uma campanha com o lema “Fique vivo!”, em que a palavra “vivo” pode ser lida como antônimo de “morto” e como sinônimo de “esperto”, “ligado”, “atento”, “cuidadoso”.
Por fim, em concursos públicos, a ambigüidade é exploradíssima. Veja duas questões emblemáticas, já que trabalham o mais explorado tipo de ambigüidade.

1ª) NCE-Várzea Paulista (2006)
A colocação das palavras e das expressões na construção das frases leva, em alguns casos, a significados diversos. À duplicidade de sentido, numa construção sintática, dá-se o nome de ambigüidade ou anfibologia. Das frases abaixo, aquela que apresenta duplicidade de sentido é:

(A) A liberdade é sempre bem-vinda como um dos maiores valores.
(B) A condenada, naquele presídio, discute sobre suas precárias condições.
(C) O ser humano alimenta o sonho de ter liberdade.
(D) Ninguém explica e ninguém entende a liberdade.
(E) A conversa acontecia luz de velas, com todo o sigilo.

2ª) NCE-Várzea Paulista (2006)
Ambigüidade ou anfibologia é a duplicidade de sentido numa construção sintática. A construção abaixo é ambígua.

Vimos a paisagem do Cristo Redentor.

Das frases a seguir, aquela que pode ter mais de um sentido é:

(A) A irmã do meu colega separou do marido, quando ele começou a beber.
(B) Respeito o meu chefe, mas não aprecio o temperamento dele.
(C) O operário, depois de ser medicado, recebeu alta.
(D) Discuto os valores religiosos, mas sem o apoio deles, eu não saberia viver.
(E) A chuva, quando demora a cair, sentimos a falta dela.

Na primeira questão, a resposta é a alternativa (B), já que o segmento “suas precárias condições” pode ter como referente anafórico “A condenada” ou “presídio”. Na segunda, a resposta é a alternativa (A), já que não fica claro quem é o referente do pronome “ele”: “meu colega” ou “marido”?

Leitores amigos, meu sincero pedido de compreensão, caso não tenham gostado do texto. É que, reconheço, hoje eu escrevi só sobre ambigüidade. (Você consegue reconhecer a ambigüidade nesse segmento sublinhado?)

Um forte abraço e até breve.

 

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