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Artigo

 

Titulo:“Do mundo da leitura para a leitura do mundo”
Autor(a): Professor Arenildo dos Santos (Professor e diretor do Curso PLA)
Data Postagem: 15/11/2009

Foi-se a época em que tinham melhor desempenho em provas de Língua Portuguesa os alunos com maior potencial de memória. Decoravam regras de concordância, sabiam conjugar verbos - inclusive os mais esdrúxulos -, fixavam macetes técnicos para reconhecimento de funções sintáticas e, assim, estavam devidamente preparados para as mais diversas provas do antigo ginasial, do científico, bem como para as de concursos públicos em geral.
Os tempos mudaram. Hoje, a realidade é outra. Graças a ramos do saber como a Lingüística e a Análise do Discurso, as provas de Língua Portuguesa não mais se atêm “decoreba” gramatical. Eu disse “não mais se atêm”, isto é, a gramática continua sendo a base de tudo e, por isso, tem de ser estudada, principalmente nos âmbitos da Morfologia e da Sintaxe. Mas isso não é tudo. Cada vez mais as questões são contextualizadas, exigindo grande capacidade interpretativa.
As provas, hoje, são mais inteligentes, exigem maior poder de raciocínio, maturidade, malícia, “jogo-de-cintura”, pois tudo tem de ser interpretado: o texto que serve de base para as questões; o enunciado de cada uma; o conteúdo de cada alternativa ou item; tudo, reitero. Não raro, as provas, hoje, trazem expressões como “implícito”, “modalizador”, “pressuposto”, “referenciação”, “anáfora”, “catáfora” e tantas outras que, até há duas ou três décadas, sequer eram citadas em estudos de gramática. Tais expressões provêm da Língüística e da Análise do Discurso, ramos que, hoje, são inseparáveis do estudo da Língua Portuguesa. E os três ramos constituem aquilo que chamo de mundo da interpretação.
Eis um fato curioso: noutro dia, eu estava num engarrafamento, com a minha filha de sete anos no banco de trás. Ela, repentinamente, perguntou-me: “Papai, garagem não serve para estacionar?” Respondi afirmativamente, sem compreender, a princípio, o motivo da pergunta. Ela, então, emendou: “Olha ali.” E eu vi, pendurada na porta de uma loja, uma placa com o seguinte conteúdo: “Garagem. Não estacione.” Eu ri. E muito. Fatos como esse mostram que não basta ler uma mensagem; tem que interpretá-la. Minha filha, de sete anos, reitero, não tinha ainda o específico conhecimento extralingüístico necessário ao entendimento pleno daquela mensagem.
Em provas de concursos públicos, o candidato tem de servir-se do seu conhecimento de mundo para realizar as inferências autorizadas pelo contexto. Não basta ler. Tem que compreender, deduzir, correlacionar, depreender os implícitos, tudo com cautela, a fim de que a análise não vire uma “viagem”.
A capacidade para realizar interpretações é inerente ao ser humano. Mas ela precisa ser treinada, trabalhada. Da mesma forma como se pode aprender a lidar com um computador, também se pode aprender a lidar com um texto. Pode parecer um circunlóquio, mas é a mais pura verdade: só se aprende a interpretar, interpretando. Não há outro caminho. E não há dúvida: quando treinamos interpretação – de textos verbais e não-verbais, preparamo-nos para lidar melhor com o mundo nossa volta. São receitas médicas, bulas de remédios, manuais de aparelhos, contratos de locação, editais de concursos, acordos judiciais, discursos políticos, enfim, uma série de situações que precisam ser precisamente analisadas, a fim de que não haja surpresas ou decepções.
Entre essas situações está, sem dúvida, a realização de provas de Língua Portuguesa em concursos públicos. Se você é candidato a algum, não se iluda. Trate de entrar no mundo da leitura, pois ele, certamente, será um dos atalhos para sua entrada no universo do funcionalismo público.
Um grande abraço.
Até a próxima.

 

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