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Artigo

 

Titulo:Com licença, Vossas Excelências
Autor(a): Arenildo dos Santos (Professor e diretor do Curso PLA)
Data Postagem: 15/11/2009

Todo dia os jornais trazem novidades acerca da mesmice política brasileira, com todo o seu jogo franciscano (que me perdoe o de Assis, pela metáfora que faço entre seu nobre discurso e a caricata aplicabilidade de sua teoria no indigno circuito político). Ninguém duvida de que estamos vivendo um dos mais delicados momentos da nossa história política. Denúncias em seqüência, mentiras, versões, estratégias de defesa, tudo isso tem enchido o povo de descrença e desilusão. Nunca se falou e ouviu tanto a palavra CPI.
Nesse cenário de escândalos, pelo menos três fatos são notáveis no universo da linguagem. O primeiro deles diz respeito ao poder da palavra, da argumentação. A língua é realmente um instrumento valioso que pode, por meio de deduções, induções, cooptações e falácias, mascarar ou atenuar culpas. Ainda na fase embrionária da CPI do mensalão, a mídia e a população letrada em geral impressionaram-se com a performance do então deputado Roberto Jefferson. Sua invejável retórica levou-o, ainda que circunstancialmente, a uma condição “macunaímica”, isto é, a de um “herói sem nenhum caráter”. Afirmo isso, porque o ex-deputado assumia sua parcela de responsabilidade, mas, simultaneamente, denunciava, denunciava, denunciava, como se fosse um “salvador da pátria”. A força da sua retórica, da sua linguagem, deixou pasmados inúmeros desafetos e conseguiu adiar o que acabou sendo inevitável: a cassação de seu mandato.
Se você está estudando para algum concurso público, não deixe de analisar como cada depoente ou interrogante manipula a língua, a fim de comprometer o outro. Observe como cada pergunta traz, pré-condicionada, certa resposta. Essa análise certamente vai-lhe trazer benefícios na hora de lidar, por exemplo, com as inúmeras questões que envolvem textos argumentativos, expositivos e retóricos. Exercite sua capacidade para depreender implícitos, inferências, porque isso é essencial análise de textos.
O segundo fato notável diz respeito a um paradoxo sociolingüístico: “Vossa Excelência mentiu!”, “Vossa Excelência se corrompeu!”, “Se for comprovado isso, Vossa Excelência irá para a cadeia!” ... A que ponto nós chegamos, não é mesmo? Os representantes da população tendo sua honra respeitosamente ofendida. Óbvio que o tratamento cerimonioso, de um lado, e a ofensa, de outro, fazem sentido no contexto em que se inserem, mas não evitam o ridículo da situação, que se mostra jocosa e alimenta de forma fértil a criatividade de programas de humor como, por exemplo, Casseta e Planeta.
Por último, uma constatação. Não bastassem as decepções políticas, temos ouvido de parlamentares frases como: “Não há dúvida de que houveram os fatos.”, “Ela jamais interviu na negociação.”, “Jamais intermedio negócios dessa natureza.”, etc. Tais exemplos não passam de pequenas amostras de outros tantos e sofríveis erros grosseiros. Sei que o leitor pode tender defesa dos parlamentares e alegar que as frases foram prolatadas em acaloradas discussões. De fato. Isso, porém, não elimina os seguidos erros, alguns, inclusive, proferidos por presidentes de grandes partidos políticos e por integrantes da alta cúpula do governo federal. Em matéria lingüística, pode-se perceber que nossos parlamentares, com raríssimas e verdadeiramente respeitáveis exceções, falam mal.
Nem tudo é ruim nessa história. Nós, professores de Língua Portuguesa, sabemos que o cidadão comum tende a achar que (quase) tudo o que sai da boca de uma autoridade social é certo sob o ponto de vista lingüístico. O fato de a autoridade “ter falado” vira um argumento para o aluno “questionar” uma ou outra lição do professor. Mas esse quadro está mudando, pois têm sido tantas e evidentes as falhas lingüísticas protagonizadas por políticos que o candidato, hoje, tende a questionar o seu discurso, não mais a lição do professor. Particularmente, acho ótimo isso. É preciso acabar com “mitos”: mesmo os de paletó e gravata cometem erros de Português. Pior ainda: erros de Português são encontrados (quase) diariamente em nossos principais jornais e revistas. O que é lamentável. Mas isso, embora seja o mesmo assunto, é outra matéria. Fica para a próxima vez.

Um grande abraço a todos.
Até breve.

 

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